Gilmarpalooza: O Festival que o Contribuinte Paga e Ninguém Foi Convidado

Todo ano, enquanto o Brasil debate cortes no orçamento, um ministro do Supremo Tribunal Federal organiza em Lisboa um encontro que reúne os donos do poder — e manda a conta para o erário

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6/3/20267 min read

Gilmarpalooza: O Festival que o Contribuinte Paga e Ninguém Foi Convidado

Todo ano, enquanto o Brasil debate cortes no orçamento, um ministro do Supremo Tribunal Federal organiza em Lisboa um encontro que reúne os donos do poder — e manda a conta para o erário. Na edição de 2026, cercada pelo escândalo do Banco Master, por um jornalista agredido na porta e por 135 autoridades com passagem paga pelo contribuinte, o Gilmarpalooza atingiu seu ápice — de grandiosidade e de constrangimento.

O Que é o Gilmarpalooza — Para Quem Ainda Não Recebeu o Convite

O nome oficial é Fórum Jurídico de Lisboa. O apelido, cunhado nos bastidores com a crueldade afetiva típica do meio político, é Gilmarpalooza — referência ao festival Lollapalooza e ao seu organizador, o ministro decano do STF, Gilmar Mendes. O ministro trata o apelido com ironia e o considera um sinal de sucesso: para ele, reunir diferentes atores da sociedade, inclusive do mercado financeiro, ajuda a qualificar o debate sobre os desafios modernos do Direito e da política internacional.

Pode ser. Mas há uma distinção importante entre um fórum acadêmico sério e um encontro de networking de alto nível bancado com dinheiro público, no qual quem tem causa no STF convive com quem decide essas causas, a cinco horas de voo de qualquer constrangimento institucional.

A 14ª edição, realizada de 1º a 3 de junho de 2026 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, prometeu setenta e um painéis, mais de quatrocentas e cinquenta vozes em sete espaços simultâneos, reunindo magistrados, parlamentares, autoridades reguladoras, governos, empresas e academia. Em termos de lista de participantes, a edição contou com três ex-presidentes — Michel Temer, Ivan Duque e Jorge Carlos Fonseca —, quatro ministros do governo Lula, três governadores, seis senadores, dezessete deputados federais, sete agências reguladoras e os presidentes do Banco Central, do BNDES, da Petrobras e da Caixa Econômica Federal.

Um festival. Com toga.

A Conta que Chegou ao Contribuinte

Se o evento fosse bancado exclusivamente por seus organizadores e participantes, a discussão seria estritamente moral. Mas ele não é — e aí a questão muda de patamar.

Levantamento da Folha de S.Paulo revelou que órgãos públicos dos três Poderes autorizaram a viagem de pelo menos 135 autoridades e servidores para o Fórum de Lisboa. O número pode ser maior, já que o levantamento considerou apenas viagens identificadas em diários oficiais e portais de transparência, com representantes de 54 órgãos diferentes.

Os números que vieram à tona são ilustrativos — e apenas parciais. O Tribunal de Justiça do Piauí aprovou o envio de uma comitiva com 13 integrantes, reservando R$ 392 mil para as despesas na Europa. O TCU autorizou a ida de 13 representantes, incluindo quatro ministros, com custo estimado de R$ 300 mil em diárias. Apenas esses dois órgãos somam R$ 692 mil — e a maioria dos demais participantes ainda não divulgou seus custos.

A AGU lidera o ranking de viagens autorizadas na Esplanada, com 22 autorizações emitidas. O órgão custeará integralmente passagens e diárias de parte da comitiva. Para não ficar de fora do pódio do constrangimento, o governador do Tocantins, Wanderlei Barbosa, levou uma comitiva de oito pessoas a Lisboa — entre elas a primeira-dama, Karynne Sotero Campos, cuja passagem aérea foi paga pelo governo estadual. A gestão tocantinense escondeu o valor total gasto com hospedagens, alegando que o passeio serve para apresentar o potencial de negócios da região no exterior.

O potencial de negócios do Tocantins. Em Lisboa. Num fórum jurídico organizado por um ministro do STF. A explicação é tão criativa que quase merece um painel próprio.

Em 2024, levantamento apontou que o Fórum de Lisboa já havia consumido ao menos R$ 1,34 milhão em diárias e passagens de recursos públicos. A edição de 2026 promete superar esse número com folga.

O Contexto Que Tornaria Qualquer Anfitrião Envergonhado — Menos Este

A edição de 2026 tem um pano de fundo que tornaria qualquer evento institucional sério pelo menos hesitante em acontecer. O encontro ocorre enquanto o STF enfrenta as repercussões do escândalo do Banco Master e discute a adoção de um código de ética para seus ministros.

O próprio Gilmar Mendes está no centro dessa turbulência — não como investigado, mas como figura cujas relações institucionais com o universo Vorcaro foram expostas publicamente. O ministro rejeitou a avaliação de que o caso Master possa afetar o encontro, afirmando que "não detectamos nenhum impacto" e que haveria uma tentativa de associar artificialmente o fórum a essas controvérsias.

A autoconfiança é admirável. A autopercepção, discutível.

Diante da pressão e do descrédito institucional, o próprio Gilmar entrou em campo pessoalmente nas últimas semanas, telefonando para autoridades e magistrados — especialmente do STJ — para reforçar os convites e blindar o evento das turbulências domésticas. Um ministro do Supremo fazendo campanha ativa por público para seu evento particular. Uma cena que diz mais sobre os limites do cargo do que qualquer código de ética poderia descrever.

O Esvaziamento que Fala por Si

O mercado interno do evento — se assim podemos chamar — reagiu à pressão do escândalo. A edição de 2026 registrou participação menor de integrantes do STF. No ano anterior, estiveram presentes Alexandre de Moraes, André Mendonça, Flávio Dino, Luís Roberto Barroso, Ricardo Lewandowski e o próprio Gilmar Mendes. Neste ano, entre os atuais integrantes do Supremo, apenas Gilmar e Moraes compareceram.

Flávio Dino cancelou — fraturou o pé em acidente doméstico. Uma desistência com o mais afortunado dos pretextos. Os demais simplesmente não foram, sem explicação pública. Quando ministros do STF precisam de uma razão para não ir a um evento organizado por um colega, o evento já perdeu algo que nenhum painel sobre soberania digital pode recuperar: a legitimidade silenciosa que vem da presença voluntária.

A Cena que Ninguém Esperava — Mas que Resume Tudo

O episódio mais revelador da edição de 2026 não aconteceu dentro dos painéis. Aconteceu na calçada da Faculdade de Direito de Lisboa. O jornalista português Sérgio Tavares confrontou Gilmar Mendes na entrada do evento, questionando sua atuação e distribuindo panfletos de "Fora STF" pelo edifício. Tavares afirmou depois ter sido agredido pelos seguranças do ministro.

Na abordagem, o jornalista disse ao ministro: "Não sente vergonha de perseguir um homem inocente num golpe criado por você? Não queremos corruptos em Portugal." Gilmar seguiu caminhando, cercado de seguranças, sem responder.

Não importa o que se pense das acusações específicas do jornalista. A imagem de um ministro do Supremo Tribunal Federal de um país democrático sendo confrontado por um cidadão português na porta de seu próprio evento, enquanto seguranças afastam o questionador, é uma síntese visual perfeita do problema. O poder que se isola de perguntas incômodas atrás de muros cada vez mais altos — mesmo quando esses muros estão em outro continente, pagos com dinheiro alheio.

O Que o Código de Ética Não Resolve

O presidente do STF, Edson Fachin, espera aprovar ainda em 2026 um novo código de ética para os ministros, sendo preparado pela ministra Cármen Lúcia, que pretende definir limites claros sobre a participação de magistrados em eventos sociais e as relações com o setor privado. O tema, no entanto, enfrenta resistência interna.

A resistência não surpreende. Um código de ética que proibisse ministros de organizar eventos anuais em Portugal, financiados parcialmente pelo erário, frequentados por empresários com causas no Supremo, seria um código de ética que alguns de seus destinatários não têm nenhum interesse em aprovar.

O problema do Gilmarpalooza não é jurídico — nenhuma lei específica proíbe que um ministro organize um fórum em Lisboa. O problema é de moralidade pública no sentido mais elementar do termo: a percepção, legítima e documentada, de que o espaço do evento mistura sistematicamente quem julga com quem é julgado, quem regula com quem é regulado, quem decide com quem financia.

Um deputado federal acionou o TCU solicitando auditoria rigorosa sobre a regularidade dos gastos de órgãos públicos com viagens ao evento, argumentando que o emprego do dinheiro público deve estar estritamente alinhado aos princípios constitucionais da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. São exatamente os princípios que a Constituição Federal consagra no artigo 37 — e que o Gilmarpalooza, edição após edição, desafia com uma desenvoltura que só é possível quando quem deveria fiscalizar está, literalmente, no mesmo avião.

Lisboa, Porém, Fica Longe de Tudo

Há algo de simbolicamente perfeito no fato de que o principal evento de networking do poder brasileiro aconteça em Portugal — longe da imprensa nacional mais agressiva, longe dos protestos, longe dos processos, longe do eleitor que paga a conta. Lisboa é bonita, tem boa gastronomia, e a Faculdade de Direito da Universidade é um cenário acadêmico que empresta gravidade ao que poderia parecer, de outro ângulo, uma excursão institucional de luxo.

O contribuinte brasileiro que está em dia com o IPTU, que usa o SUS, que paga a conta de luz com encargos que financiam subsídios que beneficiam empresas algumas das quais têm representantes no Gilmarpalooza — esse contribuinte não foi convidado. Mas pagou a passagem de 135 pessoas para ir.

A pergunta que fica, e que o leitor deve carregar enquanto acompanha os próximos capítulos dessa história: num país em que ministros do Supremo discutem código de ética enquanto organizam festivais pagos pelo erário para os próprios fiscalizados, quem, afinal, está vigiando os vigilantes?

Artigo de análise jornalística e jurídica baseado em fontes públicas. Todos os dados de gastos e participantes são provenientes de portais de transparência e reportagens identificadas no texto.

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