Brasília Está de Recesso. A Crise, Não.

O STF fechou as portas para julho, o Congresso esvaziou para os palanques estaduais e Lula trocou Brasília pela agenda internacional. Mas a semana de 7 a 13 de julho foi das mais movimentadas do ano.

SEMANA EM BRASÍLIA

7/13/20266 min read

Brasília Está de Recesso. A Crise, Não.

O STF fechou as portas para julho, o Congresso esvaziou para os palanques estaduais e Lula trocou Brasília pela agenda internacional. Mas a semana de 7 a 13 de julho foi das mais movimentadas do ano — com "Tariflávio" em audiência em Washington, Michelle fazendo silêncio ensaiado, um código de ética que ninguém quer votar e um prazo de 15 de julho que pode mudar os rumos da eleição. Bem-vindo ao noticiário de quem diz que está de férias.

O "Tariflávio" e a Audiência que Virou Tiro no Pé

A semana começou com Flávio Bolsonaro numa audiência pública em Washington — convocada pelo USTR, o escritório comercial americano que conduz a investigação que pode resultar em tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. Sua fala, de cinco a dez minutos, tentou fazer o que nenhum político consegue com naturalidade: ser ao mesmo tempo oposição ao governo Lula e defensor do interesse nacional brasileiro perante o mesmo governo americano que seu aliado Trump comanda.

Em manifestação enviada ao USTR, Flávio pediu que os EUA suspendam a imposição da tarifa às importações brasileiras até as eleições de outubro, dizendo que a manutenção da taxa neste momento beneficiaria politicamente Lula. A estratégia — pedir ao governo americano que adie uma punição econômica ao Brasil por razões eleitorais brasileiras — gerou o efeito oposto ao desejado.

Nos bastidores, auxiliares de Lula afirmam que Flávio Bolsonaro tem sido associado à política tarifária americana, o que levou governistas a difundirem o apelido "Tariflávio" nas redes sociais e no debate político. O apelido grudou. E grudou porque tem alguma razão de ser: num ano eleitoral, aparecer em Washington pedindo que sanções econômicas ao Brasil sejam calibradas ao seu calendário de campanha é, no mínimo, uma equação difícil de explicar ao eleitor do agronegócio, da indústria e do varejo que serão os mais afetados pelas tarifas.

O cenário ainda ganhou novos ingredientes políticos com as declarações de Ronaldo Caiado, que criticou tanto o presidente Lula quanto Flávio Bolsonaro pela condução da crise. Caiado — que renunciou ao governo de Goiás para disputar a presidência e ainda patina abaixo dos 10% nas pesquisas — encontrou na crise tarifária a oportunidade que buscava para se diferenciar dos dois líderes da corrida, sem precisar escolher lado.

O prazo final para decisão americana é 15 de julho. Até o fechamento desta edição, a tarifa não havia sido confirmada nem cancelada — e a expectativa do Palácio do Planalto é de que a tarifa seja confirmada em 15 de julho, com eventual retomada das negociações em um segundo momento, que pode, inclusive, ser posterior às eleições de outubro. O que, para o eleitor, seria traduzido assim: a conta chega antes da eleição, a solução vem depois.

A Família Real em Crise — e o Silêncio que Fala Mais que o Vídeo

Se a semana foi difícil para Flávio nas relações exteriores, foi ainda mais turbulenta na política doméstica — e especificamente dentro de casa. A crise com Michelle Bolsonaro, que começou em 24 de junho quando a ex-primeira-dama acusou o enteado de tê-la "maltratado, desrespeitado e humilhado" nas redes sociais, segue sem resolução formal.

Michelle sinaliza, nesta primeira semana de julho de 2026, que não quer mais disputar o Senado pelo Distrito Federal nem participar da campanha de Flávio Bolsonaro, rompendo a vitrine que ocupava no PL e abandonando o comando do PL Mulher, expondo um racha familiar e político às vésperas da eleição.

O impacto estratégico é real e multidimensional. Setores conservadores e evangélicos, que viam em Michelle uma liderança capaz de dialogar com mulheres de diferentes faixas de renda e escolaridade, avaliam a mudança como um golpe duplo: simbólico e organizacional.

Nos bastidores, o ex-presidente Jair Bolsonaro — ainda em prisão domiciliar — tenta costurar a paz. Bolsonaro pretende manter a candidatura de Michelle ao Senado pelo Distrito Federal, e o anúncio oficial deve ocorrer por volta de 25 de julho, durante a convenção nacional da sigla em São Paulo, ocasião em que o partido também deverá oficializar a candidatura de Flávio ao Palácio do Planalto.

Até lá, a ordem é silêncio. O que, para uma família que se comunica por vídeos nas redes sociais, é um exercício de autocontrole que ninguém sabe se vai durar até 25 de julho.

O STF de Recesso — Mas Mendonça não Tirou Férias

O recesso do STF começou em 2 de julho e vai até o dia 31, com os julgamentos e prazos processuais suspensos. Mas o período está longe de ser inativo: o ministro André Mendonça concentrou em suas mãos a relatoria de três dos casos mais explosivos do momento — o escândalo do Banco Master, a fraude no INSS e o caso Dark Horse.

O ministro determinou que parte de seu gabinete permaneça ativa durante julho, com o objetivo de garantir agilidade na análise de eventuais pedidos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República. Em linguagem direta: o STF está de férias, mas o ministro mais importante do momento não está. E o mercado financeiro observa isso com atenção — porque qualquer decisão urgente de Mendonça sobre o caso Master pode ter impacto imediato nos mercados.

O que ficou na gaveta é quase tão revelador quanto o que está sendo julgado. O STF entrou em recesso sem concluir três dos julgamentos mais aguardados do primeiro semestre: a definição sobre o vínculo entre trabalhadores e aplicativos, a análise da Lei da Dosimetria e a criação de um código de conduta para os próprios ministros.

Sobre o código de ética — que Fachin anunciou como prioridade no início do ano — a situação é constrangedoramente clara: a discussão deve ser adiada para depois das eleições, com integrantes da Corte avaliando que o cenário eleitoral dificulta a construção de consenso. A expectativa é que o código seja aprovado no primeiro semestre de 2027.

Traduzindo: um código de ética para ministros do STF, anunciado em fevereiro como urgente, adiado para depois das eleições, com previsão de aprovação em 2027. Num tribunal cujos membros têm mandato vitalício. Urgência, evidentemente, é relativa.

Fachin Encerrou o Semestre com Discurso. Gilmar Encerrou com uma Frase

A última sessão antes do recesso foi palco de um discurso de Fachin sobre colegialidade, diversidade de opiniões e saúde institucional. O presidente afirmou que "compreensões distintas de fatos e processos" fazem parte de uma corte plural e independente, e que "o diálogo entre diferentes perspectivas jurídicas é o que confere legitimidade às nossas decisões".

Belo discurso. O problema é o contexto em que foi proferido. Ao longo do semestre, um grupo de ministros se opôs à agenda de Fachin e cobrou do magistrado uma defesa mais enfática da corte em meio às investigações sobre o Banco Master. A crise escalou quando o decano do STF, Gilmar Mendes, acusou Fachin de obstruir a pauta do tribunal e, em um diálogo ríspido nos bastidores, disse que ele era um "mau perdedor".

Um ministro do STF chamando o presidente da Corte de "mau perdedor" nos bastidores. O presidente respondendo que o colega estava equivocado. E ambos, na sequência, embarcando para Lisboa para o Gilmarpalooza. Saúde institucional, como Fachin disse, tem muitas definições possíveis.

O Congresso Que Não Estava Lá

O Legislativo funcionou nesta semana em modo pré-eleitoral: semipresencial, com deputados e senadores distribuídos pelos estados construindo palanques e negociando candidaturas. Em virtude de as próximas semanas serem preparatórias para as convenções estaduais, o regime de votações foi semipresencial, o que permite que parlamentares não precisem estar presentes em Brasília.

Hugo Motta, presidente da Câmara, não definiu pauta de votações para a semana. Alcolumbre, no Senado, pautou matérias de menor controvérsia — aposentadoria de agentes comunitários de saúde, endurecimento de penas para crimes contra crianças, combate à violência doméstica. Matérias importantes, diga-se, mas que nenhum parlamentar perde eleição por votar.

A PEC da escala 6x1, aprovada pela Câmara na semana anterior com placar histórico, segue aguardando calendário no Senado. A pressa do governo para aprová-la antes de outubro é inversamente proporcional à disposição dos senadores de encarar o empresariado com eleição chegando.

O que a Semana Revela Sobre o Brasil de Outubro

Há um fio condutor que conecta todos esses episódios aparentemente dispersos — o "Tariflávio", o racha do PL, o recesso estratégico do STF e o Congresso nos palanques. É o mesmo fio que atravessa toda a política brasileira desde o início do ano: tudo já é campanha eleitoral, mas ninguém ainda admite oficialmente.

Flávio vai a Washington não como senador — vai como candidato tentando recuperar narrativa. Michelle faz silêncio não como familiar — faz como peça eleitoral sendo reposicionada. O STF adia o código de ética não por questão técnica — adia porque nenhum ministro quer ser limitado em ano que os holofotes estão mais quentes. O Congresso se dispersa não por férias — se dispersa porque a eleição começou.

A pergunta que Brasília evita responder nesta segunda semana de julho é a mais simples e a mais incômoda: o principal efeito das tarifas unilaterais, politicamente motivadas, aplicadas ao país tem sido impor danos à economia nacional e à geração de emprego e renda — e nesse cenário, quem cuida do Brasil enquanto todos cuidam das próprias candidaturas?

Artigo de análise política semanal. Baseado em fontes públicas identificadas no texto. A presunção de inocência se aplica a todos os investigados citados.

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