A Semana em que Brasília Fingiu Estar de Férias — e Começou a Campanha
STF em recesso, Congresso esvaziado, convenções definindo candidaturas e Alcolumbre enterrando pautas como moeda de troca — o Brasil entrou na reta final para outubro sem resolver nenhum dos problemas que acumulou no primeiro semestre
SEMANA EM BRASÍLIA
8/2/20268 min read


A Semana em que Brasília Fingiu Estar de Férias — e Começou a Campanha
STF em recesso, Congresso esvaziado, convenções definindo candidaturas e Alcolumbre enterrando pautas como moeda de troca — o Brasil entrou na reta final para outubro sem resolver nenhum dos problemas que acumulou no primeiro semestre
Introdução
Existe uma convenção democrática brasileira que se repete a cada quatro anos com a regularidade de um ritual: em julho de ano eleitoral, Brasília para. O Congresso entra em recesso. O STF suspende os julgamentos. Os ministros viajam. Os parlamentares correm para seus estados. E a capital federal, por algumas semanas, parece uma cidade normal.
A convenção, esta semana, está sendo cumprida na forma — e completamente ignorada no conteúdo.
O STF entrou em recesso no dia 2 de julho. O Congresso Nacional opera em regime semipresencial, com parlamentares divididos entre Brasília e suas bases eleitorais. As convenções partidárias — que escolherão candidatos e definirão coligações para outubro — ocorrem entre 20 de julho e 5 de agosto.
Mas enquanto as togas descansam e os plenários ficam vazios, o Brasil acumula uma lista de problemas não resolvidos que voltará com força total em agosto: a PEC 6x1 travada no Senado, a PEC da Segurança Pública parada, a vaga do STF sem preenchimento, o caso Master em expansão, o tarifaço americano como espada de Dâmocles sobre a economia e uma eleição presidencial a menos de três meses cujos candidatos — ambos — têm investigações em andamento.
O recesso é real. A crise é contínua.
1. Alcolumbre Enterrou a Pauta — e Cobrou o Preço
A notícia que encerrou a semana anterior e define o tom desta é a mais reveladora sobre o equilíbrio de poder em Brasília neste momento.
A sessão conjunta que analisaria os vetos presidenciais, marcada para 9 de julho, foi cancelada na véspera pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Foi o segundo adiamento seguido — a sessão anterior, prevista para 18 de junho, também não aconteceu. "Os líderes não chegaram a um consenso", afirmou Alcolumbre ao anunciar o cancelamento.
O clima entre o governo e o comando do Senado azedou. Em 7 de julho, Alcolumbre declarou que não aceitará "ameaça e tentativa de intimidação" na condução da pauta legislativa.
A declaração de Alcolumbre de que não aceita "ameaças e intimidações" é o tipo de frase que, em Brasília, só é dita quando alguém se sentiu ameaçado ou intimidado — e quer sinalizar que tem força suficiente para resistir. Traduzida do diplomatês político: o Planalto tentou pressionar. Alcolumbre não cedeu. E o recesso chegou sem que nenhum dos dois lados tivesse piscado.
Alcolumbre segurou a tramitação da PEC que acaba com a escala 6x1, da PEC da Segurança e do projeto de lei que estabelece regras para minerais raros — todas consideradas prioritárias pelo governo. O período de recesso será consumido com convenções e alianças eleitorais.
O resultado prático é devastador para a agenda governamental: matérias com impacto direto no bolso, como o teto do MEI e a escala 6x1, tendem a disputar espaço com a agenda de palanque em agosto. O trabalhador que esperava a aprovação da PEC 6x1 antes do recesso seguirá cumprindo jornada de 44 horas. O cidadão que esperava a PEC da Segurança Pública para ver mais coordenação federal contra o crime organizado seguirá esperando.
E Alcolumbre seguirá com seu poder de pauta intacto — e suas próprias investigações ainda em andamento, como se as duas coisas não se tocassem.
Impacto constitucional: O artigo 85 da Constituição define como crime de responsabilidade do presidente da República atentar contra o livre exercício do Poder Legislativo. Mas a Constituição não tem artigo equivalente para o presidente do Senado que usa seu poder de pauta como instrumento de negociação política pessoal. O que é juridicamente tolerado nem sempre é democraticamente aceitável — e essa distinção, raramente discutida, é o coração do problema.
2. O Congresso que Não Votou a LDO — e as Consequências Silenciosas
Há um dado desta semana que passou despercebido no ruído eleitoral — e que tem implicações jurídicas e orçamentárias que outubro não resolverá.
Conforme a Constituição, o recesso parlamentar ocorre entre 18 e 31 de julho quando há aprovação do projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias. Neste ano, como a proposta não foi votada, os parlamentares fizeram um recesso informal, sem convocação de sessões legislativas. Os prazos legislativos continuaram correndo — inclusive os das medidas provisórias.
A LDO define metas fiscais, prioridades de governo e as regras para o Orçamento do ano seguinte. O Congresso precisa votar a LDO de 2027, enviada pelo governo em abril. A falta de votação impediu que o Congresso entrasse formalmente em recesso em julho — de modo que, embora as atividades tenham sido interrompidas, os prazos legislativos continuaram correndo.
Isso significa que o Congresso tirou férias sem cumprir a precondição constitucional para tirá-las. As Medidas Provisórias continuaram vencendo. Os prazos continuaram correndo. E o Orçamento de 2027 — que precisará financiar o governo que for eleito em outubro — segue sem diretrizes aprovadas.
É um problema administrativo grave apresentado como irrelevante. Mas num país em que o fiscal é uma das principais disputas eleitorais — com a oposição acusando o governo de irresponsabilidade e o governo defendendo o novo arcabouço —, aprovar a LDO seria politicamente simbólico. E o Congresso não aprovou.
3. As Convenções e o Tabuleiro Eleitoral que Está Sendo Desenhado Agora
O cronograma eleitoral prevê: de 20 de julho a 5 de agosto, convenções partidárias nos níveis nacional, estadual e municipal; 15 de agosto, prazo final para registro de candidaturas no TSE; 16 de agosto, início da propaganda eleitoral nas ruas e na internet; 28 de agosto, início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e TV.
Este é, portanto, o momento em que o tabuleiro eleitoral de outubro está sendo montado — e as peças mais importantes ainda não estão no lugar.
A vaga do STF permanece em aberto — e sua definição, que deveria ser técnica, tornou-se parte das negociações entre Lula e Alcolumbre que ainda não resultaram em reunião. O candidato que ocupar essa cadeira — com mandato até a aposentadoria compulsória — terá poder de voto em julgamentos que afetarão diretamente os candidatos que disputam outubro.
Pesquisas mostram Lula à frente de Flávio Bolsonaro, mas com segundo turno equilibrado. Segurança, saúde, economia, tarifas comerciais e articulação legislativa devem orientar a campanha.
O tarifaço americano — investigação sobre possível taxação de 25% sobre produtos brasileiros, ligada ao processo de Bolsonaro — permanece como fator de incerteza econômica. Flávio Bolsonaro se inscreveu para falar na audiência pública americana, tentando combater o discurso de que estaria atrapalhando as negociações com o governo Trump. A manobra é clara: transformar o processo judicial do pai em argumento de política comercial — e se posicionar como o único capaz de desbloquear as relações com Washington.
É uma estratégia arriscada e potencialmente eficaz. Se o eleitor associar o tarifaço ao governo Lula — e a solução ao nome Bolsonaro — o impacto nas pesquisas pode ser significativo, independentemente do mérito jurídico ou econômico do argumento.
4. O que Agosto Terá que Resolver — e Por que Vai Ser Difícil
As atividades devem ser retomadas na primeira semana de agosto, mas pautas relevantes terão de competir com o calendário eleitoral. Lideranças evitam pautar matérias que possam provocar desgaste durante a campanha.
O cientista político da UnB citado pelos veículos da semana sintetizou com precisão o problema: "O parlamentar deixa de olhar Brasília apenas como arena legislativa e passa a olhar cada votação também como ativo ou passivo eleitoral."
Em tradução direta: a partir de agora, nenhum parlamentar vota por convicção. Vota por cálculo eleitoral. E cálculo eleitoral raramente produz boas políticas públicas.
A lista do que precisa ser resolvido em agosto é assustadora em sua extensão:
PEC 6x1, PEC da Segurança Pública, vetos presidenciais pendentes, LDO de 2027, vaga do STF, minerais estratégicos e o teto do MEI — todos represados no Senado sob o controle de Alcolumbre, que entrará no recesso com as mesmas investigações e as mesmas demandas não atendidas pelo Planalto.
E mesmo após o recesso, a previsão é de que Câmara e Senado não funcionem normalmente por causa das campanhas. O calendário eleitoral impõe uma pausa que pode se estender até novembro.
O Brasil pode estar prestes a passar quatro meses — de julho a outubro — com o Congresso funcionando no piloto automático eleitoral, enquanto problemas urgentes ficam represados aguardando um ambiente político que, por definição, não existirá antes de novembro.
Perspectiva Histórica: O Recesso Como Instrumento — e Como Refém
A Constituição de 1988 criou dois períodos de recesso parlamentar: de 22 de dezembro a 1º de fevereiro, e de 18 a 31 de julho. A lógica era dar ao Legislativo tempo para descanso e articulação — e garantir que o calendário de trabalhos fosse previsível.
O que os constituintes de 1988 não previram é que o recesso de julho, em anos eleitorais, se tornaria o momento em que o poder real de negociação se desloca definitivamente para quem controla a pauta — porque todos querem sair de Brasília o mais rápido possível e qualquer obstáculo pode ser usado como moeda.
Alcolumbre segurou a PEC 6x1, as convenções começaram, o STF entrou em recesso e o governo chegou ao final de julho sem resolver o impasse. Em 1988, os constituintes sonharam com um Congresso que legisla e um recesso que o faz recuperar forças. Em 2026, o recesso é a arma mais eficiente que um presidente do Senado tem contra um presidente da República.
Análise Crítica: O Vazio que Governa
Há algo profundamente revelador nesta semana aparentemente vazia: ela mostra que o Brasil, neste momento, está sendo governado pelo que não acontece.
A PEC 6x1 não foi votada. A vaga do STF não foi preenchida. A LDO não foi aprovada. A reunião Lula-Alcolumbre não foi marcada. A sessão de vetos não aconteceu. O caso Master não teve novos desenvolvimentos públicos — mas Vorcaro continua preso, calculando.
Cada um desses "nãos" é uma decisão — tomada por alguém, com alguma motivação, produzindo algum efeito. O recesso não é ausência de poder. É poder exercido de outra forma: pelo adiamento, pela omissão, pelo bloqueio silencioso.
E enquanto Brasília finge descansar, o Brasil real continua operando: trabalhadores em jornada 6x1, estados sem coordenação federal de segurança, economia sujeita ao tarifaço americano, candidatos sendo definidos em convenções que poucas pessoas acompanham.
A democracia não para no recesso. Apenas muda de velocidade — e nem sempre para o lado que o cidadão esperaria.
Conclusão
A semana termina com Brasília vazia na forma e cheia no conteúdo. O recesso é real — os plenários estão silenciosos, as togas estão guardadas, os ministros estão viajando. Mas os problemas que o primeiro semestre produziu não respeitam calendário parlamentar.
Agosto começará com uma pauta impossível para um Congresso em modo eleitoral. O STF retomará com julgamentos que definem direitos fundamentais e regras eleitorais. O tarifaço americano estará ou não confirmado. Vorcaro ainda estará preso — ou terá fechado acordo. E as convenções partidárias terão ou não definido quem estará de cada lado de um segundo turno que as pesquisas mostram como tecnicamente imprevisível.
O recesso acabou. A campanha começa. E o Brasil descobre, mais uma vez, que as duas coisas não podem coexistir sem que uma devore a outra.
Existem limites que nem o poder pode ultrapassar. Esta semana, o poder passou as férias testando esses limites — silenciosamente, pauta por pauta, adiamento por adiamento. O Brasil volta de férias em agosto. Os problemas nunca foram embora.
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