"Me Esqueça, Gilmar!" — As Brigas, Climões e Frases Históricas do STF

Porque o tribunal mais formal do Brasil também tem seus momentos de... digamos, humanidade

5/8/20265 min read

Ótimo tema! Deixa eu pesquisar os episódios mais marcantes antes de escrever:Material explosivo e divertidíssimo. Aqui está o artigo:

"Me Esqueça, Gilmar!" — As Brigas, Climões e Frases Históricas do STF

Porque o tribunal mais formal do Brasil também tem seus momentos de... digamos, humanidade

Introdução

Imagine a cena: mármore branco, togas pretas, gravatas sóbrias, microfones discretos, câmeras transmitindo ao vivo para o país inteiro. O ambiente mais solene do Judiciário brasileiro. O lugar onde se decide o destino de leis, direitos e, ocasionalmente, de presidentes.

Agora imagine, nesse mesmo ambiente, um ministro gritando para o colega que ele não está falando "com seus capangas do Mato Grosso". Ou outro classificando o vizinho de toga como "uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia". Ou ainda um terceiro encerrando uma discussão com um sonoro e definitivo: "Me esqueça!"

Bem-vindo ao lado B do Supremo Tribunal Federal — o que não aparece nos discursos de posse, mas aparece nas atas das sessões, nos bastidores da Corte e, eventualmente, nas camisetas que o público manda fazer com as frases mais memoráveis.

O Clássico dos Clássicos: Gilmar vs. Joaquim Barbosa

Se existe um duelo que entrou para o folclore institucional brasileiro, é o de Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa. Dois juristas brilhantes. Duas personalidades colossais. Uma antipatia mútua que produziu alguns dos momentos mais cinematográficos da história recente do STF.

Em abril de 2009, Gilmar Mendes criticou um voto de Barbosa, classificando-o sarcasticamente como "voto de matinê" — insinuando falta de profundidade jurídica. Era uma cutucada calculada, do tipo que só funciona entre pessoas que se conhecem bem o suficiente para saber onde dói.

Barbosa não deixou barato. A resposta foi direta e sem margem para interpretação: "Vossa Excelência não está falando com seus capangas do Mato Grosso."

A sala congelou. O clima ficou, nas palavras de quem estava presente, literalmente insustentável. A sessão do dia seguinte foi cancelada. A inimizade jurídica passou para o campo pessoal, e os dois mal se olhavam depois do episódio.

"Capangas do Mato Grosso" virou referência histórica — citada em livros, artigos acadêmicos e, inevitavelmente, nas conversas de corredor de qualquer faculdade de Direito do país. É o tipo de frase que nenhum manual de oratória forense recomenda — e que todo mundo lembra para sempre.

"Uma Mistura do Mal com Atraso e Pitadas de Psicopatia"

Se você achava que "capangas do Mato Grosso" era o limite, o STF guardava surpresas.

Em 2018, no plenário, Barroso disse que Gilmar Mendes era "uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia". A frase ficou célebre e virou até camiseta.

Pense nisso por um momento. Um ministro do Supremo Tribunal Federal, em sessão plenária transmitida ao vivo, diagnosticou publicamente o colega com pitadas de psicopatia. Não em bastidor. Não em mensagem privada. No plenário. Com microfone aberto. Para o Brasil inteiro ver.

Gilmar não ficou em silêncio. Na mesma sessão, disse que Barroso deveria "fechar seu escritório de advocacia" — insinuando que o ministro não era isento o suficiente. E completou: "Vossa Excelência, sozinho, envergonha o tribunal. É muito ruim. É muito penoso para todos nós ter que conviver com Vossa Excelência aqui. Não tem ideia, não tem patriotismo, está sempre atrás de algum interesse que não é o da Justiça. É uma coisa horrorosa, uma vergonha, um constrangimento."

"Horrorosa, vergonha, constrangimento." Dito por um ministro do STF, sobre outro ministro do STF, em sessão plenária. Os dois ficaram muito tempo sem se falar depois do episódio. Tempos depois, fizeram as pazes. A vida institucional segue.

"Me Esqueça!" — O Fim de Papo Mais Elegante da República

Nem todas as brigas vêm com insultos elaborados. Às vezes, a tensão se expressa com economia de palavras — e eficiência máxima.

Em 2014, após um pedido de vista de Luiz Fux em um caso importante sobre precatórios, Fux perdeu a paciência ao ser contestado por Gilmar Mendes e ordenou: "Me esqueça, Gilmar!"

Três palavras. Microfone aberto. Plenário do Supremo. A frase foi tão precisa, tão definitiva e tão perfeitamente brasileira que também entrou para o vocabulário político nacional.

Mas Fux não foi o único a usar a técnica do "fim de papo" com estilo. Em 2016, o ministro Ricardo Lewandowski, após um bate-boca acalorado com Gilmar Mendes sobre ordem de votos, encerrou a discussão com a mesma frase, tornada clássica: "Vossa excelência, por favor, me esqueça!"

Gilmar Mendes, é preciso reconhecer, tem um talento especial para inspirar esse tipo de encerramento. É quase uma especialidade.

O Aborto, Marco Aurélio e a Liminar Solitária

As brigas não se limitam a disputas de ego. Às vezes, o estopim é genuinamente técnico — e revela o quanto decisões individuais de ministros podem inflamar o ambiente coletivo.

Em outubro de 2004, foi julgada em plenário uma liminar concedida por Marco Aurélio Mello permitindo que uma grávida de bebê sem cérebro pudesse realizar um aborto. Joaquim Barbosa disse que o assunto era polêmico demais para ser decidido por um único ministro.

A crítica de Barbosa tocava numa ferida real do STF: o poder das decisões monocráticas — tomadas por um único ministro, sem o colegiado. É um poder imenso, que frequentemente gera atrito interno, porque o restante do tribunal muitas vezes discorda do colega que agiu sozinho — e precisa decidir, depois, se referenda ou derruba a decisão diante do público, das câmeras e da história.

A Sala de Lanches e a Diplomacia do Cafezinho

No meio de tanto climão, há um detalhe que humaniza o STF de um jeito quase inesperado.

Não é raro que os mesmos protagonistas de uma discussão áspera em plenário sejam vistos em conversas amigáveis minutos depois na sala de lanches, onde os ministros se reúnem para uma espécie de recreio nos intervalos da sessão.

A sala de lanches do STF como espaço de reconciliação institucional. Onde "capangas do Mato Grosso" e "pitadas de psicopatia" são temperados com cafezinho e biscoito de polvilho. Onde ministros que acabaram de se chamar de vergonha do tribunal dividem a mesma mesa e conversam sobre o próximo julgamento.

Há algo profundamente brasileiro nisso. E talvez, no fim das contas, algo profundamente humano.

O Procurador com Arma e Outras Histórias dos Bastidores

Para quem ainda achava que as tensões do STF se limitavam ao plenário, os bastidores reservam uma história que ultrapassa qualquer ficção.

Em um livro publicado em 2019, o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot revelou que ficou a menos de 200 metros de Gilmar Mendes com uma arma em punho — e desistiu de atirar.

Releia com calma. O ex-chefe do Ministério Público federal. Com arma. A menos de 200 metros de um ministro do STF. Numa história que ele mesmo resolveu contar num livro.

Gilmar, que ao longo dos anos trocou farpas públicas com Janot em diversas ocasiões, jamais comentou diretamente o relato. A resposta mais adequada para essa situação específica provavelmente não existia — nem no vocabulário jurídico, nem no informal.

Conclusão: O Supremo Também É Humano

As brigas, os climões e as frases memoráveis do STF não são apenas entretenimento institucional — embora sejam, inegavelmente, isso também. Elas revelam algo que os discursos de posse sistematicamente escondem: o Supremo Tribunal Federal é composto por seres humanos, com egos, vaidades, convicções profundas e impaciências genuínas.

Ministros que discordam apaixonadamente, que se ofendem e fazem as pazes, que julgam bilhões de reais e direitos fundamentais pela manhã e dividem o cafezinho pela tarde. Que produzem frases que viram camiseta e decisões que moldam o país por décadas.

A formalidade do mármore e da toga é real — mas é também uma camada. Por baixo dela, existe o mesmo material humano, imperfeito e fascinante, que existe em qualquer lugar onde pessoas com poder precisam conviver, discordar e decidir juntas.

A diferença é que no STF, tudo isso acontece com microfone aberto — e o Brasil inteiro assistindo.